Saúde mental e Covid-19

Texto da psicóloga da Seção de Atenção ao Servidor (Sats) do Instituto Federal do Rio Grande do Sul (IFRS), Ana Maria Jung de Andrade
Embora a saúde física seja o principal objetivo do isolamento, você já pensou qual o impacto psicológico para quem fica obrigado a se afastar de tudo e de todos? Gostamos de planejar e saber o que nos espera no futuro, e essas interrupções, sem respostas em nossa rotina, contribuem para uma maior instabilidade emocional. Durante um período de isolamento, como o que estamos, alguns estressores comumente identificados são a duração do período crítico, medo de infecção, não dispor de suprimentos e cuidados básicos, a perda da rotina (frustração ou tédio), redução da capacidade social, diminuição do contato físico com outras pessoas, e informações imprecisas e inadequadas.
Dicas e considerações sobre como passar por esse período mais abaixo
Pelo pouco conhecimento sobre as estratégias mais eficazes para combater pandemias, as consequências psicológicas ainda são estudadas, mas é esperado que em tempos de quarentena surjam sentimentos de medo, confusão, atitudes de letargia ou procrastinação (se tenho mais tempo, posso fazer depois!). Alguns podem, por outro lado, desenvolver (principalmente nas primeiras semanas), uma atitude de maior agilidade, assumindo multitarefas e rapidez como uma forma de combater ou não se deixar atingir, procurando sentir-se no controle da situação (cuidado com a autoexigência de performance!). É natural, somos humanos tentando sobreviver a uma ameaça mal conhecida.
O sofrimento é diferente para cada um; é cultural e pessoal. O primeiro mês é mais difícil, a mudança repentina nas rotinas pode favorecer a ansiedade e o estresse, e esses sentimentos justamente baixam nossa imunidade e facilitam o acesso de doenças como Covid-19. No entanto, é o nosso corpo que está isolado, não nossas conexões. Pense bem: todas estas estratégias são parte de um movimento altruísta de cuidar da sociedade, dos recursos e capacidades de nosso município, para não fazer sofrer um parente, um amigo próximo ou mesmo um desconhecido.
A literatura científica em psicologia já indicou que mais importante do que o evento em si é a forma como avaliamos, enfrentamos e como nos sentimos. Esta é uma oportunidade para ressignificar suas relações afetivas, sociais e de trabalho; rever valores e reais necessidades; reenquadrar projetos pessoais.
Dicas e considerações
– Com relação às rotinas, para evitar a procrastinação ou a autoexigência de performance, estabeleça uma agenda de tarefas ou atividades por turno. Avalie se as tarefas estabelecidas atuam para seu conforto intelectual, emocional e físico. Reorganize ou distribua melhor, se precisar.
– Converse com sua equipe sobre o que precisa ou pode ser feito neste período e estabeleçam prazos.
– Retome hábitos que lhe dão prazer. O que você fazia, antes de Covid-19, para ter a sensação de calma e pertença? Há vida além do corona, conecte-se com isso.
– Lembre-se de que quanto maior seu movimento em prol de outras pessoas (altruísmo), menor os danos a sua saúde mental.
– Evite assistir, ler ou ouvir notícias intensamente, principalmente aquelas que podem nos deixar mais ansiosos e angustiados. Procure informações pontuais que lhe forneçam medidas práticas e adequadas para proteger a si mesmo e a seus familiares. Ao buscar atualizações das notícias, faça-o uma ou duas vezes ao longo do dia.
– Evite transmitir de forma compulsiva mensagens a respeito da doença, na tentativa de alertar os grupos familiares sobre o risco iminente; não espalhe fake news, não espalhe mais pânico. Em vez disso, transmita boas notícias e exemplos, como ações solidárias realizadas em São Paulo, notícias otimistas, iniciativas como as do IFSul e do IFRS.
– Cuide de seu sistema imunológico: alimente-se bem, mantenha as rotinas de sono e exercícios físicos e lembre que seu sistema imunológico responde às oscilações emocionais.
– Por fim, precisando de ajuda, busque! O Conselho Federal de Psicologia flexibilizou o cadastro de profissionais para atendimento clínico online durante os meses de março e abril. Outras iniciativas locais estão trabalhando para dar o suporte necessário, como em Bento Gonçalves. Informe-se em sua região.
 
Referências
– Entrevista de Débora Noal, psicóloga sanitarista da Fiocruz, especialista em desastres e grandes epidemias
– Blog Viva Bem, do psicólogo Cristiano Nabuco (textos de 24/03/2020 e de 17/03/2020)
– Organização Mundial da Saúde (OMS)
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